“Queremos ser os melhores dos melhores”

A partir do dia 1 de janeiro de 2017, a ZF e TRW juntarão os seus negócios de pós-venda, numa única unidade. Em entrevista exclusiva ao Jornal das Oficinas, Helmut Ernst, atual responsável da nova unidade de negócios da ZF Services, explica os objetivos desta reorganização do grupo e, também, da importância do mercado português na estratégia global da companhia.

 A multinacional alemã combinará as divisões de pós-venda de ambas companhias (ZF Services e TRW Aftermarket), para criar o segundo maior fornecedor mundial de componentes para o IAM. O Salão Automechanika foi o palco escolhido pela ZF para dar  mais detalhes aos seus clientes sobre a nova estrutura das marcas e serviços da companhia.

Com as divisões de vendas e compras já plenamente integradas no negócio do equipamento original, os clientes passam, agora, a beneficiar da união destas duas empresas na área do aftermarket, onde é importante falar a uma só voz e assegurar que os produtos e serviços estejam disponíveis em todos os mercados do mundo.

A ZF adquiriu TRW Automotive a 15 de maio de 2015, depois das autoridades da concorrência terem validade a operação, que foi anunciada em meados de setembro de 2014. Agora, a multinacional alemã dá mais um passo na reestruturação organizativa de ambas as companhias, com a junção das divisões de pós-venda num único negócio. Apesar desta mudança, o nome TRW irá manter-se como marca e irá juntar-se a um portefólio onde se encontram a Sachs, Lemförder, Boge e Openmatics. Nasce, assim, o segundo maior fornecedor de peças aftermarket do mundo, com, aproximadamente, 8.000 empregados e um volume de negócios de 3.000 milhões de euros por ano.

Que objetivos pretende atingir com a constituição desta unidade de negócios da ZF Services? Pretendem ser o maior fornecedor de peças aftermarket a nível mundial?
Sim, posso dizer que se calhar estamos quase nesse patamar, mas ainda não chegámos lá. Ainda existe muito trabalho para fazer. Não temos o objetivo de ser o número um, temos sim o propósito de sermos os melhores. A dimensão, claro que interessa no sentido de termos uma abrangência global, mas mantemo-nos sempre perto dos nossos clientes. Queremos ser, no aftermarket, aquela empresa que oferece os melhores produtos e os melhores serviços. É certo que sermos os melhores dos melhores pode andar um pouco ligado a tudo o que fazemos, mas não se trata de uma obsessão para nós.

Como vai ficar constituído o portefólio de marcas da ZF Services?
A TRW é, para nós, a hipótese de ter uma nova oferta na área dos travões e segurança. Olhando para o nosso portefólio de marcas Sachs, Lemförder, Boge, TRW e Openmatics, está, agora, muito mais completo. É uma gama de marcas poderosa e muito completa quando olhamos para o automóvel, para a sua dinâmica, vemos que não deve existir nenhum outro fornecedor que consiga um "cabaz" de peças tão completo. E não se trata apenas de peças, trata-se, também, dos serviços a elas associados. Por isso, acho que somos muito completos e utilizamos essa estratégia com foco no consumidor e cliente, ajudando-o a conquistar ainda mais sucesso.

E como caracteriza a vossa gama de produtos?
Temos produtos para a dinâmica do automóvel, motor e caixa de velocidades, travões, sensores, para mostrar que o automóvel pode ver, pensar e pode, inclusivamente, atuar. Na oferta de produtos para a mobilidade, temos embraiagens, com a Sachs, para nos certificarmos que unimos toda a cadeia cinemática, e com a Lemförder asseguramos que o comportamento do veículo está em constante funcionamento, graças à direção e suspensão, a TRW com travões e amortecedores, a Boge também para amortecedores e com a Openmatics concentramo-nos em dados, para já apenas para autocarros e camiões, mas no futuro com outros equipamentos destinados a veículos ligeiros. Desta forma, estamos preparados para fornecer, por exemplo, a operadores de frotas a ligação correta e direta aos seus automóveis e, no caso de ser um operador logístico, tem sempre a hipótese de saber onde se encontra determinado veículo. Tudo isto acontece de forma simples e rápida... é isto o nosso Openmatics.

Onde são fabricados os vossos componentes para o aftermarket? Utilizam as mesmas fábricas de OE para produzir esses componentes?
Em relação aos produtos que comercializamos, temos sempre peças e componentes a vir diretamente das linhas onde os produtos OE são feitos e onde é especificado o tipo de segmento para onde se destinam. Por exemplo, há um caso em que temos a nossa própria produção aftermarket numa determinada fábrica ao mesmo tempo que decorre a produção OE. Posso dizer que produzimos mais de 80% do que vendemos como ZF e até em outras gamas aftermarket nas nossas fábricas. No que diz respeito à Sachs ou à Lemförder, estamos perto de fábricas OE. Quanto à TRW, estamos mais próximos das fábricas aftermarket. Basicamente, tudo isto revela a variedade de produtos que podemos oferecer aos nossos clientes.

O que vai mudar com o aparecimento da telemática e do eCall no veículos?
Como todos sabemos, com o eCall a ser obrigatório a partir de 2018, todos os veículos passarão a utilizar este sistema. Para os que não têm, existe a possibilidade da telemática, ou seja, está tudo associado. Esta situação faz com que os construtores tenham de acrescentar ainda mais características aos seus modelos. Por exemplo, dar ao veículo a possibilidade de transmitir dados para um servidor. Portanto, em relação à proteção de dados, sou da opinião que a responsabilidade deve ser do fabricante. Por outro lado, no que diz respeito apenas aos dados, é importante que toda a informação que "saia" de um automóvel seja restrita, mas que possa ser vista não só pelo fabricante, mas por todos na cadeia de aftermarket, mesmo os fornecedores de peças independentes. Por isso, no caso desta decisão ser realmente tomada, que seja sem restrições, todavia assegurando a proteção do proprietário e do condutor do veículo. Desta forma, podemos assegurar a mobilidade perfeita aos nossos clientes.

Acredita que os construtores de automóveis vão disponibilizar os dados técnicos dos veículos às oficinas independentes?
Nada nesta vida é garantido, mas temos de trabalhar nesse sentido, com os fabricantes, com as autoridades em Bruxelas e Berlim para assegurar o acesso aos dados. Acho que é do interesse dos fabricantes ter um mercado livre onde esse dados vão estar sempre disponíveis. Eles também podem fazer manutenção a veículos de outras marcas, por isso também vão precisar de ter acesso aos dados desses veículos de outras marcas. Eu sou da opinião que uma plataforma de dados sobre veículos livre e aberta é sempre importante e necessária para todos os fabricantes e para o aftermarket. Por isso, espero que ganhe a aposta que é mais necessária.

Que conselhos quer dar às oficinas para conseguirem manter-se na linha da frente da reparação e manutenção automóvel?
Os conselhos são simples: nunca deixarem de aprender e de inovar, estarem preparadas para aprenderem ainda mais. Que tentem atrair jovens para as oficinas, para que possam aprender mais facilmente as inovações que chegam a cada dia. Que se esforcem para não deixar os jovens em casa a jogar Pokémon e que facilitem a sua integração nas oficinas.
O ambiente que se vive no aftermarket e nas oficinas atualmente é tão bom e tão passível de ensinar os mais novos e até os mais velhos. E nós, como fornecedores de peças, em conjunto com os nossos concorrentes, vamos assegurar que todas as informações estejam sempre disponíveis. Vamos fazê-lo através do e-learning, temos o nosso programa Protect Plus Learning, que mostramos na Automechanika, através do vídeo stream e temos muita coisa disponível na Internet. Portanto, para mim, é isto o futuro. Estar lá e saber aproveitar as oportunidades.

Fizeram uma reunião com os principais clientes durante a Automechanika para lhes apresentarem a estratégia da nova unidade de negócios do Grupo ZF. O que lhes foi transmitido?
Sim, já tivemos as cimeiras da TRW, ZF e ZF Aftermarket e foi impressionante ver mais de 500 pessoas juntas a ouvir a informação sobre o mercado que temos para lhes transmitir. Juntámos as nossas estruturas e com o objetivo que perseguimos, sabemos ouvir o cliente através das mais variadas plataformas de contacto. Mas também precisamos de saber as nossas necessidades e atuar da forma mais rápida, sempre com o cliente em mente. Tudo para que o cliente acredite que, no futuro, ainda lhe vamos oferecer uma gama de produtos mais ampla e para que saiba que vamos estar exatamente onde eles precisam de nós, neste ou naquele momento mais complicado, mas, claro, também nos mais simples e fáceis de resolver.

Que opinião tem do mercado português e qual a sua importância para o negócio global da companhia?
Portugal claro que conheço, muitas férias e muito quilómetros rodados e o vosso país é importante para nós. Foi um dos mercados que conseguimos adaptar à nossa realidade. Claro que não foi fácil, especialmente nos últimos anos, mas é um mercado que está a voltar ao que já foi e está muito forte nesta fase. Perspetiva-se que os nossos parceiros e oficinas consigam ganhar bom dinheiro neste momento. São muito ativos, adaptam-se facilmente à realidade do mercado e nós queremos prestar-lhes todo a ajuda possível.

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